segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para que ninguém a quisesse

"Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou   que descesse a bainha dos vestidos  e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza  chamava a atenção, e  ele foi obrigado  a exigir  que eliminasse  os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários  tirou  as roupas de seda, da gaveta tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e tosquioulhe os longos cabelos. Agora podia viver descansado. Ninguém  a olhava duas vezes, homem  nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não atravessava praças. E evitava sair. Tão esquiva se fez que ele foi deixando de se ocupar dela, permitindo que fluísse  em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras. Uma fina saudade, porém começou a alinharse em seus dias. Não saudades da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela. Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. Á noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitarlhe o que  restava dos cabelos. Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido numa gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava na cômoda."

Marina Colasanti - Contos de amor rasgados


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